18/11/2008 16:51

Quixote, Sancho Pança e Suplicy




O senador Pedro Simon (PMDB-RS) aproveitou o dia morno, ontem, no plenário do Senado, para anunciar uma tese gelada que dificilmente mobilizará multidões: ele, seu colega Cristovam Buarque (PDT-DF) e o paulista Eduardo Suplicy (PT) vão percorrer o país para debater a eleição presidencial de 2010.

Aproveitando-se da mídia recente em torno das eleições americanas e da escolha de Barack Obama, Simon defende a realização de prévias para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sugere, explicitamente, que o Brasil poderia seguir o exemplo dos EUA, que escolhem seu presidente "num longo processo democrático que mobiliza o país".

Bem, antes de mais nada, é preciso dizer que esse processo de escolha de presidente americano não é tão democrático assim. Colégios eleitorais inteiros, nos estados, são obrigados a votar num único candidato, vitorioso nas prévias, mesmo quando a diferença de votos não foi tão alta. Uma anomalia que resultou, oito anos atrás, na eleição de George Bush para presidente, com minoria. Naquela época, falou-se muito mal do sistema. Agora que deu Obama, temos essa onda aí, de que, nos EUA, a democracia é uma beleza.

Depois, é preciso ser bem claro sobre qual a questão que está levando Simon, Suplicy e Cristovam a quererem percorrer os estados. Não é nenhum sentimento menor. Mas é preciso falar claro: querem um candidato alternativo à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff – nome escolhido pelo presidente Lula – para presidente.

Disse Simon, em plenário, que, pela primeira vez depois de cinco eleições, o nome de Lula não constará da cédula de uma campanha presidencial: "Esta será uma eleição diferente, não existe candidatura natural, o próprio PT ainda não acatou o nome apoiado por Lula, da ministra Dilma Rousseff", argumentou. E insistiu que o PMDB é o maior partido do país, mas "que, da forma como é dirigido, ficou reduzido a um acessório nas eleições presidenciais". Simon afirma que não defende explicitamente a candidatura própria, "porque a direção do PMDB vai usar isso para negociar com o PT ou o PSDB".

Tem razão o velho senador. Quando o presidente nacional do PMDB, Michel Temer, fala em candidatura própria, ele só está querendo, de fato, aumentar o valor do PMDB na barganha. O próprio Simon já foi usado assim: lançaram-no candidato para melhor negociar com o presidente da época, que era Fernando Henrique Cardoso.

É uma pena, mas essa caravana de Simon, Cristovam e Suplicy é a caravana dos rejeitados. São três senadores da melhor qualidade, mas têm andado meio na contramão eleitoral. Cristovam foi um pouco além dos 2% como candidato a presidente nas últimas eleições. E, agora que o presidente de seu partido, Carlos Lupi, entrou de cabeça no governo, dificilmente o PDT lhe dará a legenda novamente. Suplicy – meio que boicotado pela direção nacional do PT – elegeu-se senador com uma pequena margem sobre Guilherme Afif, do ex-PFL.

Mas nem tudo está perdido para eles. Simon e seu grupo reelegeram o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça. Não têm voz no PMDB nacional, mas mantêm seu pequeno império no Sul. E Suplicy, como sempre, teve o destino a seu favor. A derrota de sua ex-mulher, Marta Suplicy, acabou com o último nome com força eleitoral em São Paulo – que não o do senador – para a disputa a governador em 2010.

Lula e o PT não morrem de amores pelo companheiro de partido, mas, sem ele, sairão com quem? Aloizio Mercadante queimou-se completamente nas eleições anteriores, quando foi derrotado por José Serra em meio a boatos de fabricação de dossiês contra os tucanos. José Dirceu e Ricardo Berzoini, os dois nomes de peso dentro do partido no estado, não têm grande patrimônio eleitoral. Faltam-lhes votos!

Lula pode não gostar de Suplicy. Mas, se decidiu eleger Dilma Rousseff, talvez tenha que fazer o sacrifício de colocar o senador na campanha, trazendo apoios para sua candidata. Afinal, escolher um poste no resto do Brasil e, ainda, escolher outro poste para tentar eleger no principal colégio eleitoral do país seria mais do que temeridade. Seria burrice mesmo. E o presidente já deu mostras de que não é burro.

enviada por Tales Faria



11/11/2008 17:39

Internet e política

A propósito do post anterior, veja o texto de hoje da Folha de S.Paulo, que me foi enviado pelo amigo Sérgio Costa.

Boom de sites de campanha não explora interatividade
Número de páginas de candidatos cresce 317%, mas políticos ignoram recursos da rede

Dados são de pesquisa da UNB; para especialistas, experiências de Obama nos EUA e Gabeira no Rio podem estimular campanha on-line

ITALO NOGUEIRA
DA SUCURSAL DO RIO


A internet, terreno em que as campanhas de Barack Obama e Fernando Gabeira fizeram sucesso neste ano, é ocupada cada vez mais por candidatos, mas poucos sabem explorá-la.

Segundo pesquisa da UnB (Universidade de Brasília), houve crescimento de 317% no número de sites de candidatos no Brasil, em comparação com as últimas eleições municipais. Mas o boom não foi acompanhado da interatividade, como fizeram o presidente eleito dos EUA e o candidato derrotado à Prefeitura do Rio.

Os dois mobilizaram jovens para suas campanhas, criando "pontos de encontro" de adeptos em seus sites. As páginas tinham espaços em que voluntários organizavam ações sem a tutela dos candidatos, mas em favor deles. Eleitores de Gabeira, por exemplo, fizeram uma doação de sangue em massa, imagem que depois foi usada na campanha oficial.

O mesmo não ocorreu com os demais candidatos. Segundo estudo de Francisco Brandão, pesquisador da UnB, 9.254 candidatos a prefeito e vereador criaram sites de campanha, contra 2.218 em 2004. Mas a maioria ignorou recursos interativos, usando as páginas como "folders eletrônicos" -com fotos, textos e vídeos apenas.

A falta de legislação clara sobre propaganda na internet e o receio em descentralizar a campanha frearam, segundo especialistas, a interatividade. Neste ano, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) adotou para a internet as regras na campanha de TV e rádio, o que gerou dúvidas entre candidatos.

"Muitas vezes o candidato tem insegurança de fazer determinado evento e depois ser questionado pela Justiça Eleitoral", diz Brandão.

Sem milagres

Especialistas afirmam que as experiências de Obama e Gabeira vão obrigar os demais a ampliar o uso de ferramentas digitais. Mas não crêem no surgimento de um fenômeno eleitoral só a partir da rede.
"Se um candidato de pouquíssima relevância usa a internet muito bem, isso não vai necessariamente alçá-lo a uma posição melhor", diz o cientista político Francisco Paulo Jamil, da UFMG.

A pesquisa de Brandão indica justamente que a internet serviu, até agora, a candidatos com forte estrutura de campanha. A proporção de candidatos "conectados" é maior nos principais partidos e entre políticos que já exercem mandato.

"É preocupante, porque a internet pode apenas repetir distorções que existem no nosso sistema eleitoral e político. Mas mostra a força desse meio, porque os atores mais influentes já estão interessados nele", diz.

A campanha de Obama afirma ter recebido doações de 3,1 milhões de pessoas na internet. Gabeira tentou arrecadar pela rede, mas não conseguiu autorização do TSE, que promete regulamentar esse tipo de doação para a próxima eleição.

O avanço sobre a rede tem como alvo uma fatia de 34% da população que acessa a internet, segundo o Comitê Gestor da Internet. O percentual chega a 60% entre os jovens.

Para Jamil, os candidatos com eleitorado jovem têm mais chance de "lucrar" com a internet, mas devem adequar o site. "Se o candidato defende propostas para os jovens, e esse eleitor entra no site e só há uma foto e um texto chato que está desatualizado, esse vínculo é quebrado."

enviada por Tales Faria



11/11/2008 12:23

A grande revolução de Barack Obama



Confesso que o título acima pode se tornar meio exagerado. Pode ser que a revolução de que eu vou falar não seja a única, nem a grande revolução promovida pelo presidente negro dos EUA, Barack Obama. Se, com ele, sobrevier uma revolução nos costumes americanos, colocando uma pá de cal no racismo, esta será, sim, a grande revolução. Se o futuro presidente dos EUA acabar com a mania dos americanos de se acharem os donos do mundo, esta também será uma grande revolução. Enfim, outras tantas possibilidades de grandes revoluções se abriram com a eleição de Barack Obama. Daí essa onda de otimismo que se instalou, mesmo em meio a uma das maiores crises financeiras da História.

Mas, por enquanto, fico com a grande revolução mais à mão, aquela que a eleição de Obama já está promovendo: a entrada definitiva da internet na política.

Segundo reportagem publicada ontem no site do jornal The Washington Post, assessores e aliados do presidente eleito dos Estados Unidos estão preparando uma expansão do sistema de comunicação da Casa Branca, cujo objetivo é permitir que o democrata mantenha contato com seus apoiadores, mobilizados ao longo dos 21 meses de campanha pela internet. A reportagem afirma que Obama quer continuar a usar a rede para se manter próximo à população. Cuidará de uma base de dados com endereços de e-mail de 10 milhões de pessoas. Desse total, cerca de 3,1 milhões fizeram doações para a sua campanha e os outros se apresentaram como voluntários que organizaram grandes comícios e fizeram campanha boca a boca.

Desde o início da candidatura, o presidenciável Obama optou por fazer uma campanha sem investimentos privados, usando apenas as arrecadações de seu eleitorado. Em uma atitude inédita, decidiu que a forma prioritária de divulgação de sua propaganda eleitoral seria a rede mundial de computadores. Por meio de vídeos postados no YouTube que se tornaram verdadeiros hits, o candidato pediu pequenas contribuições que se multiplicaram. Acabou entrando para o Guinness como a maior quantia já captada numa eleição: graças à internet, a campanha democrata, arrecadou em torno de US$ 660 milhões.

Aqui no Brasil, quem mais percebeu este fenômeno foi o candidato do PV a prefeito do Rio, Fernando Gabeira. Ele também priorizou a internet, inclusive para contribuições de campanha. Tanto que, já no primeiro turno, ultrapassou em arrecadação o bispo Marcelo Crivella – com todo o poder da Igreja Universal do Reino de Deus. Valendo-se da internet, Gabeira acabou se tornando a grande surpresa das eleições no Rio, mesmo tendo chegado em segundo lugar.

No caso dos EUA, Segundo informa a tal reportagem do Washington Post, Barack Obama entendeu que, de fato, a internet traz uma nova dimensão para a política. Terminadas as eleições, sua equipe mandou, na semana passada, uma mensagem eletrônica aos apoiadores, afirmando que esta não seria a última a ser enviada pela turma do presidente. Que se preparassem os eleitores para permanecerem em linha direta com o eleito. Na quarta-feira, o próprio Obama enviou um texto aos auxiliares, no qual insistiu que a eleição deve ser o começo e não o fim desse tipo de movimento político iniciado na sua campanha. Daí que já foi criado um novo site , que dá informações sobre a transição do governo, põe à disposição um blog e um formulário de sugestões. O projeto aponta com clareza o tipo de interação com a população que a administração de Obama pretende estabelecer.

Deu para entender? Votou no sujeito, e ele manterá você em linha direta com seus auxiliares no governo. Os apoiadores de campanha continuarão opinando e – até! – participando de sua administração. É ou não é uma grande revolução?

Não sei que tipo de antropofagia a democracia americana fará deste tipo de democracia direta que a internet tende a produzir, à medida que se vai aproximando da política. Mas a movimentação da política em direção à rede mundial de computadores, produzindo um novo tipo de democracia direta, parece inevitável. Ainda mais agora que foi apadrinhada pelo presidente dos EUA.

enviada por Tales Faria



09/11/2008 12:11

PT vai apressar candidatura de Dilma Roussef


Em política, nada é gratuito. Hoje, por exemplo, o presidente nacional do PT deu uma declaração bastante curiosa, principalmente no final de semana em que se realiza reunião do Diretõrio Nacional do partido.

Berzoini disse que a mnistra Dilma Roussef, é o nome inegável dentro do PT, quando se discute a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2010. Conforme anota o JB Online, "Quase que unanimidade entre os petistas, Dilma é, segundo o dirigente da legenda, uma indicação óbvia a ser feita, embora eventuais outros postulantes ao cargo não possam ser deixados de lado.

- A postura dela, o compromisso com o governo Lula e as suas ações no partido, eu posso dizer com tranqüilidade que hoje não tem ninguém com argumento contra a candidatura da ministra Dilma. O que não podemos é excluir outras candidaturas que possam surgir - disse Berzoini.

- Naturalmente, esse nome (de Dilma) vai estar sendo debatido. É a primeira vez que o presidente Lula não vai disputar a eleição desde que o PT existe. O nome mais óbvio hoje é da ministra Dilma, é inegável. É o nome do presidente Lula hoje, pessoa que tem bom relacionamento dentro do PT, embora seja pessoa de filiação recente no partido - observou."

Por que eu disse que nada é gratuito na politica: Porque Berzoine está, na verdade, respondendo à pressão de um forte grupo de seu partido, liderado pelo ex-deputado José Dirceu, que exige uma definição rápida sobre o candidato a 2010.

Ontem em seu blog, Dirceu foi claro:


Quatro candidatos a presidente já miram 2010

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, registram os jornais, é convidado para se filiar ao PMDB por ninguém menos que o presidente nacional do partido, deputado Michel Temer (SP) e pelo líder do partido na Câmara, deputado Eduardo Alves (RN). Ao mesmo tempo, o ex -presidente senador José Sarney (AP) informa ao presidente Lula que o PMDB não abre mão da presidência do Senado.

Como vemos, e como tenho dito, 2010 é agora e o PT tem que tomar ao pé da letra essa realidade. Precisa se unir, priorizar 2010 e ter a consciência do risco real, já que é um direito do nosso principal aliado (o PMDB) nas próximas eleições presidenciais ter uma candidatura própria. Fora a disputa que o governador tucano paulista José Serra levará até às fileiras do PMDB para criar uma base de apoio à sua pretensão presidencial.

O que está em jogo, então, vejam bem, é não só a aliança com o PMDB, mas nossa ida para o 2º turno em 2010. Não é impossível vislumbrar-se hoje - e esse já é o quadro real - um cenário com quatro candidaturas ao Palácio do Planalto: a do PT, provavelmente a ministra-chefe da Casa Civil da presidência da República, Dilma Roussef; a do PMDB, Aécio Neves; a do PSDB, José Serra; e por fim a do PSB, deputado Ciro Gomes (CE).

Sem falar na hipótese de uma chapa tucana Serra-Aécio, com um candidato do DEM a governador de São Paulo. Há, ainda, a possibilidade real de uma aliança Aécio-PSB com o deputado Ciro Gomes de candidato a vice-presidente. E tudo depende, também, de interesses regionais, particularmente, de garantir o apoio para nossa/o candidata/o presidencial no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.


enviada por Tales Faria



09/11/2008 11:05

\"Os EUA rumavam para um tipo de fascismo\"

A revista "Domingo" traz uma entrevista bastante interessante sobre a campanha de Barack Obama

NO OLHO DO FURACÃO

EM PASSAGEM PELO BRASIL, CHARLES ROSEN, RESPONSÁVEL PELA
CAPTAÇÃO DE RECURSOS DA CAMPANHA MAIS RICA DA HISTÓRIA DOS
EUA, CONTA COMO AJUDOU A ELEGER O NOVO PRESIDENTE

Repórter: CYNTHIA GARCIA
Foto: DANIEL WAINSTEIN


A campanha democrata, com ajuda da internet, arrecadou em torno de US$ 660 milhões vindos de aproximadamente 1 bilhão de donativos, e entrará para o Guinness como a maior quantia já captada numa eleição. "We made it (conseguimos)!", disse Rosen, em êxtase, durante as rápidas 48 horas que passou, recentemente, no Brasil.

No cerne da multimilionária campanha para Barack Obama a pedido da senadora Hillary Clinton (Charles trabalhou para ela quando a mulher de Bill estava na corrida eleitoral), o publicitário nascido no Canadá (mas morador de Nova York, onde comanda a empresa de branding Amalgamated) liderou ("voluntariamente") uma equipe cuja missão era convencer democratas, independentes ­ assim chamados aqueles que não são registra dos em partido algum ­ e indecisos a fazerem doações.

Acabou tendo visão privilegiada da acirrada disputa à cadeira mais nobre da Casa Branca. Presenciou as tentativas de difamação dos dois lados, a polarização do país, a paranóia do fator Bradley (para não ser tachado de racista, o eleitor mentiria para as pesquisas dizendo que votará num candidato negro, mas recuaria na urna) e a adesão da quase totalidade do showbusiness americano ao mantra de mudança ­ "We need change" ­ da campanha democrata (veja mais em quadro à frente). Também viu a segurança de Obama desmantelar três atentados contra ele, o último há três semanas. Aqui, lembra o espetáculo midiático que foram as eleições americanas e faz revelações exclusivas da corrida presidencial que mudou a história.

O que aconteceu que Hillary não foi escolhida como candidata?
É complicado. Havia uma disputa de poder dentro do partido democrata. Havia um grupo que sabia que teria menos poder com a volta dos Clinton. E tivemos um péssimo relacionamento com a imprensa. Eu estava presente nas primárias democratas. Quando eu ia ver a reportagem na CNN sobre a Hillary, parecia outro evento, crucificavam-na.

Por quê?
O segundo mandato de Bill Clinton (referência ao caso Mônica Lewinski) respingou nela. Os problemas que os Estados Unidos enfrentam são muito complexos, a maioria não entende, mas todo mundo sabe o que é um affair. Ele mentiu sobre isso e ficou no inconsciente coletivo.

Como foi o relacionamento com a mídia na campanha do Obama?

Houve uma articulação muito bem feita em torno da campanha. Viajando pelos estados, durante meses, dava para perceber o clima esfuziante crescendo em torno dele, nas igrejas, nos centros comunitários, nas escolas, algo nunca visto antes numa campanha.

Como analisa isso?
Qualquer movimento social, seja o de direito civil, seja a Al Qaeda, se dá por meio de pequenos grupos locais, em torno de um tema e de um líder simbólico. O senador Obama virou esse líder.

A seu ver, Hillary é mais preparada que Obama?
Há dois anos eu teria dito sim. O presidente Obama demonstrou a sua capacidade de liderança e caráter. Ele tem ótima qualidade para um líder: sabe ouvir. E tem uma calma, uma força, impressionantes.

Quando ela não venceu nas primárias, você apoiou Obama, por quê?
Tivemos uma reunião fechada, proibida para a imprensa, em maio, no hotel Mayflower em Washington, e Hillary pediu nosso apoio a Obama. Foi bem tensa, gerou briga. Alguns democratas perderam a confiança no partido, negaram apoio. Outros aceitaram a contragosto, e houve ainda os que concordaram porque perceberam uma liderança no presidente eleito.

E você?
Na realidade, não há diferenças ideológicas entre os dois. Nós, democratas, acreditamos num sistema nacional de saúde, no fortalecimento do nosso sistema educativo e dos Estados Unidos, entre outras coisas. Diferente dos republicanos, que se dividiram em cristãos conservadores, idéias conservadoras em relação aos impostos, o grupo pró-Israel etc. Mas possuem uma característica, por mais diferentes que sejam, conseguem se alinhar. Dizem: "Democrats fall in love, Republicans fall in line" (democratas se apaixonam, republicanos se alinham) (risos).

E o preconceito racial contra Obama e contra Hillary por ser mulher?
Essas questões foram levantadas o tempo todo pela imprensa de forma indireta e transformou as eleições num entretenimento midiático melhor que qualquer reality show. Nas entrelinhas era o tempo todo a questão do negro versus branco ou do homem negro contra a mulher branca.

O que aconteceu quando Obama se tornou o candidato do partido?
Foram dois anos de batalha árdua, e o país teve tempo para ver quem ele é. Viram como ele se comunica com o povo, como toma decisões, como passa as informações de forma radicalmente diferente da administração Bush, que desrespeitou os fundamentos democráticos americanos e estava rumando para um tipo de fascismo.

Explique.
Um pequeno grupo ficou com muito poder nas mãos. A democracia é um conceito delicado, quando a diferença entre as classes sociais fica abismal, ela se perde. Depois de 9 de setembro, passamos a conviver com o medo; em troca de segurança, perdemos boa parte de nossa liberdade como cidadãos.

Como vê os Estados Unidos em relação à comunidade internacional?
A idéia de que somos uma supernação já era. Obama irá manter um diálogo aberto com outros presidentes. A posição de McCain seria a de permanecer com o dedo em riste em relação ao mundo.

Qual cenário prevê para daqui a quatro anos?
Temos um bom tempo para ajustar os ponteiros dessa crise econômica. Acho que Sarah Palin não foi escolhida para ser vice nessa eleição nem para a presidência em 2012, mas para unificar a direita cristã e os evangélicos no partido, que não simpatizavam com a visão mais liberal, entre aspas, de McCain. E dessa maneira trazer dinheiro para os cofres republicanos. Ela deu nova vida ao partido e atraiu um grupo que McCain não conseguiu convencer.

E essa imagem de esquerda do Obama?
Dizem que ele é de esquerda, mas na verdade, ele não é tão de esquerda assim, foi o único lugar que sobrou para ele.

Mas e a relação polêmica dele com o terrorista americano Bill Ayers e o pastor Jeremiah Wright?
A audácia dos republicanos é espantosa. Acusam coisas absurdas e não olham para si. Sarah Palin desfilava nos comícios com seu bebê com síndrome de Down, como se fosse um acessório da produção de seu show. O padrasto de Karl Rove (mais importante estrategista do Partido Republicano) era gay, todo mundo sabia. A filha de Dick Cheney (vice no primeiro mandato de Bush) é gay, e esses dois condenam a união entre pessoas do mesmo sexo! Assisti a vários cultos do reverendo Wright, quando trabalhei para Hillary, quando queria que Obama perdesse a qualquer custo. Mas as palavras do reverendo são inspiradoras e baseadas em conceitos cristãos ¬ e olha que eu sou judeu! Agora, fazer como a imprensa faz, tira um pedaço aqui, edita ali, tudo sai de contexto.

Mas e o Bill Ayers?
Obama saiu da política de Chicago, que faz a de Washington parecer fichinha. Claro que em algum momento vai haver um encontro ou uma associação indevida. Mas não é razão para acabar com o caráter do presidente Obama.

Por que Hillary preferiu continuar como senadora?
O presidente precisa de alguém capaz de apoiá-lo, aconselhálo, mas que não diminua sua imagem. Não podemos esquecer a batalha das primárias de 18 meses para a escolha do candidato do partido. Uma diferença entre republicanos e democratas é que quando Obama se tornou nosso candidato à presidência, ele se tornou também o líder do partido, e com isso tem a responsabilida de de escolher seu vice. Os republicanos tomaram a decisão por McCain. A opção dele não era Sarah Palin, era Joe Lieberman, um judeu e ex-democrata. Imagine se os republicanos aceitariam um vice assim! O partido escolheu-a porque ela representa a direita, e no final foi bom para McCain. Não é oficial, mas corre ter sido Karl Rove quem escolheu Sarah Palin. Em 40 anos tivemos apenas dois presidentes democratas, Jimmy Carter e Bill Clinton; acredite, os republicanos entendem de eleições presidenciais.

O que achou da troca de agressões entre os candidatos?
É importante entender que a imprensa apelou para o sensacionalismo. McCain falou várias vezes que Obama é um homem respeitado, que está feliz por testemunhar um negro na corrida presidencial, mas coisas assim não são publicadas. Claro, ele queria vencer, mas tem a noção exata do momento histórico que estamos vivendo.

Como é Obama fora do palanque?
Pensei que ele fosse explodir com as acusações de Sarah Palin, mas nada, o homem tem uma calma fora do normal.

Depois dessa campanha de difamação, ódio e polarização do país, não teme que Obama seja assassinado?
Não acredito que isso aconteça. Quando o presidente Obama levar o país para um futuro melhor, essa animosidade muda.

O que significa ter Barack Obama como presidente?
Ele simboliza a resposta à ideologia do governo Bush. O país busca outro caminho desesperadamente para repararmos os erros cometidos pela administração atual e seguir em frente. Obama possui a visão, a personalidade, a força e a capacidade de governar a nação neste momento tão difícil.

E se McCain tivesse ganhado?
Eu me mudaria de volta para o Canadá (risos).


enviada por Tales Faria



06/11/2008 15:26



A propósito da eleição de Barack Obama, nos EUA, vale reler o célebre discurso de Martin Luther King, em 28 de agosto de 1963. O líder negro americano recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 1964 e foi assassinato no dia 4 de abril de 1968. Tomara que, agora, os americanos tenham aprendido.

EU TENHO UM SONHO
(no final, o vídeo no You Tube do discurso)

"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.
Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.
Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.
Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.
Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.
Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.
Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre.

Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.

"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"

E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.

Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:

"Livre afinal, livre afinal.

Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal."



enviada por Tales Faria



04/11/2008 10:47

recordar é viver




enviada por Tales Faria



04/11/2008 10:39

Tempo, tempo, tempo, tempo...


Só pra se divertir:



(Carnaval de 1955 ou 1954)
enviada por Tales Faria



04/11/2008 09:38

Por que Obama é melhor contra a crise




Meninos, eu os vi fortes na crise

Crise econômica e eleição nos Estados Unidos. E veio logo à minha cabeça o I-Juca-Pirama, aquele famoso épico de Gonçalves Dias, em que o velho guerreiro timbira contou aos mais moços a saga de um corajoso adversário tupi. Termina assim o poema: "E à noite, nas tabas, se alguém duvidava / Do que ele contava, / Dizia prudente: — ‘Meninos, eu vi!’".

Pois é, como velho repórter de política, eu também já vi coisas difíceis de explicar aos mais moços. Vi Fernando Collor de Mello recém-eleito – forte, poderoso – determinar o confisco da poupança do país e o Congresso se render. Esperavam dele que controlasse a inflação, os problemas da economia, e deram-lhe tudo o que pedira.

Meninos, eu vi um ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, e o então presidente da República, Itamar Franco, editarem o Plano Real, darem um basta na inflação e explodirem de popularidade. Pediram ao Congresso, como pré-condição para a sobrevivência do real, que fossem autorizados a ignorar as vinculações constitucionais. Isso mesmo: foram autorizados a mandar às favas a Constituição, em suas determinações de que parcelas do Orçamento da União fossem aplicadas em áreas sociais. Essas vinculações eram tidas como uma das grandes vitórias da democracia na elaboração da Constituição Cidadã de 1988. Caíram facilmente quando apareceu um presidente forte, popular, com maioria no Congresso.

É assim, meninos, que a coisa funciona.

Tanto que, depois, eu vi Fernando Henrique Cardoso, recém-eleito, poderosíssimo, com maioria no Congresso, sair privatizando a rodo estatais que antes qualquer um julgava impossíveis de serem vendidas. Afinal, era o que o presidente pedia para manter a inflação sob controle e a economia em ordem. E as estatais caíram como um castelo de cartas.

Meninos, eu vi depois outro presidente recém-eleito, o Luiz Inácio Lula da Silva, também poderoso, ir conquistando a maioria no Congresso e, um a um, os agentes econômicos que antes apontavam o torneiro mecânico no poder como um perigo para o capitalismo. A tal ponto o novo presidente se fortaleceu que acabou se tornando imune a escândalos do porte do mensalão. Quem quer saber de escândalos quando a economia vai bem, o presidente de plantão esbanja popularidade e tem maioria no Congresso?

E por que vieram-me à cabeça os versos do I-Juca-Pirama e essas histórias de economia e presidentes fortes? Porque isto tudo tem a ver com a eleição e a crise econômica nos EUA. E porque vi um levantamento de Richard Cowan, em reportagem da Reuters, mostrando que os democratas dominaram a Câmara dos Estados Unidos durante quatro décadas, de 1955 a 1995, metade do segundo mandato de Bill Clinton, que governou com relativo controle sobre a economia. Mas aquela história da Monica Lewinsky, de charutos e vestidos melados, abalou sua popularidade e abriu espaço para o Partido Republicano voltar ao comando da Câmara.

George Bush acabou eleito presidente. Mandou no país com pulso firme e o controle parlamentar até 2006. Mas sua desastrosa atuação no Iraque, somada a escândalos fiscais e éticos acabaram levando de volta os democratas a retomarem a hegemonia parlamentar. E acabaram-se as condições de governabilidade do presidente sobre a economia. Daí à crise foi um passo.

Em outras palavras. Presidente recém-eleito é presidente forte. Com maioria no Congresso, é mais forte ainda. E aí, sim, tem condições de tornar exitoso um plano econômico qualquer, por mais doloroso que seja.

Por este motivo as eleições nos EUA agora são tão importantes para o mundo. Junto com o presidente, serão renovadas 50% das vagas na Câmara. A expectativa é de que o Partido Democrata mantenha e até amplie seu controle sobre o parlamento. Richard Cowan avalia que os democratas podem até ficar por um largo período de tempo com o controle da Câmara e do Senado.

Se isto for verdade e se Barack Obama for eleito, teremos aí a tal situação de presidente recém-eleito, poderoso, e com o controle do Congresso. Portanto, com todas as condições para debelar a crise. Se isto for verdade, talvez 2009 não seja tão ruim assim.

enviada por Tales Faria



02/11/2008 15:38

Entrevista com novo prefeito do Rio




"As viúvas do Gabeira é que estão chorando"
Repórteres:
Marcelo Migliaccio, Rodrigo de Almeida e Tales Faria


Na ante-sala do escritório no que fica 13º andar do prédio da Fundação Getúlio Vargas, na Praia de Botafogo, Zona Sul do Rio, surge o prefeito eleito Eduardo Paes bem disposto, mas visivelmente mais magro depois da maratona eleitoral. Em cerca de 50 minutos de conversa, revela que já conseguiu, ainda este ano, R$ 200 milhões para obras no complexo da Penha, na linha 4 do metrô (Zona Sul–Barra) e na Via Light, fora as parcerias para a revitalização da Zona Portuária. Com humor, saboreia a vitória sobre Fernando Gabeira, diz que gosta do Posto 9 – mas ia à praia no 10 – e confessa que ainda não dormiu direito desde a vitória no segundo turno. As xícaras de café e o refrigerante zero em sua mesa confirmam que o ritmo de trabalho continua frenético. Mas agora o desafio é outro: transformar as palavras da campanha em realidade, apesar da crise econômica internacional e de outros obstáculos que, ele mesmo admite, podem surgir até 2012. A seguir, a entrevista exclusiva do prefeito eleito ao Jornal do Brasil.

Pela reação de alguns, parece que Fernando Gabeira venceu a eleição.
Eu não queria estar no lugar dele. Prefiro estar derrotado onde estou. Para vencer a eleição é preciso um voto a mais que o adversário. O que vier além disso é lucro. Estou com 54.999 lucros. Essa visão de que ele saiu ganhando é de setores importantes da sociedade que o apoiaram. A eleição acabou, mas há um monte de viúva chorando. São pessoas que respeito. Adorava o Caetano Veloso e continuo adorando. Morri de inveja ao ver o Caetano cantando no programa do Gabeira. Torço para que algum dia ele cante para mim. Não precisa ser numa campanha, mas para a prefeitura... Acho a Fernanda Torres uma excepcional atriz. Esses artistas fizeram sua opção. Mas numa democracia o voto das pessoas conhecidas vale tanto quando o das mais humildes. Agora é olhar para a frente. Quero governar para todos os cariocas.

Como pretende sinalizar isso para os eleitores?
Não sou de ficar emitindo sinais para setores da sociedade que não votaram em mim, como fazer um programa de subsídio ao teatro ou aos cantores do Rio. O que desejo é ser um bom prefeito. Para isso, já estou trabalhando desde segunda-feira, sempre acordando cedo. Quando a prefeitura funciona, é para todos. Claro que há quem sofra mais com a má qualidade dos serviços porque depende do poder público para tudo. Mas todos nós sentimos a ausência do prefeito Cesar Maia. As pessoas estão carentes de prefeito. A comunicação dele com a sociedade é feita por e-mail. Quando ele responde por e-mail, não dá para saber se está com a cara triste, com a cara alegre, com a sobrancelha levantada... Coisas de gente, de ser humano.

Não é uma prova de que o instituto da reeleição não dá muito certo?
Existem casos em que a reeleição funcionou. O mandato atual do presidente Lula é muito melhor do que o primeiro. Já o segundo do presidente Fernando Henrique foi pior. Não há uma regra para isso.

Quais serão, de fato, suas maiores prioridades quando assumir a prefeitura?
A primeira prioridade é a questão da saúde, que é onde as pessoas mais sofrem. Já estamos tratando disso, o secretário Hans Dohmann está designado e trabalhando. Outra meta da qual já comecei a tratar esta semana é romper o isolamento político do Rio. E o terceiro ponto que eu gostaria de deixar marcado é o de ser o prefeito do feijão-com-arroz, o síndico, aquele que cuida do cotidiano da cidade, da conservação, da troca da lâmpada, da grama aparada na praça, da limpeza das ruas.

O segundo secretário anunciado, Rodrigo Bethlem, é o da ordem pública...
Ele vem conduzindo um trabalho importante com as operações Copabacana, Ipabacana e Barrabacana. É uma pessoa respeitada e com disposição para enfrentar esse tema, que é complicado na cidade. Vamos atuar com a Guarda Municipal, a área de licenciamento de atividade econômica, de controle urbano. Ele talvez vá ser o secretário com maior interação com as outras secretarias. Por ser uma questão de postura e atitude, podemos dar uma resposta imediata nessa área. Não é algo que exija recursos, licitações.

Como a ação social vai complementar esse trabalho?
A rua não é um lugar para se morar, não pode ser alternativa aos problemas sociais. Precisamos ter uma política social efetiva. Vamos buscar a família da criança que está na rua e ver do que ela precisa. Vamos dar tratamento adequado aos que têm problema com drogas. O que não pode, é em plena Rua da Alfândega com Rio Branco, no Centro, haver pessoas fazendo suas necessidades fisiológicas com a maior naturalidade.

O senhor pretende investir nessa estrutura de amparo social? Não há, por exemplo, um centro de tratamento municipal para dependência química...
Não há. Existe até uma Secretaria de Prevenção à Dependência Química, mas não tem recursos, nem políticas desenvolvidas. O secretário é até um homem de bem, o coronel Duran, mas não dispõe de recursos.

O senhor esteve em Brasília e foi ao Congresso saber como estão os projetos para o Rio. A que conclusão chegou?
Essa visita marca uma nova era, de interação dos três níveis de governo aqui no Rio. Já conseguimos com a bancada fluminense que alguns recursos do orçamento deste ano fossem disponibilizados para fazermos o complexo da Penha, a Via Light e a linha 4 do metrô. Algo em torno de R$ 200 milhões. O que pedimos ao Lula foram recursos referentes a emendas da bancada deste ano, que ainda não tinham sido disponibilizados. Mas o grande pedido que fiz a ele foi o investimento no Porto do Rio, que já será uma intervenção urbana fantástica na cidade. A prefeitura entra com concessões de uso, o governo federal e o Estado, com algumas áreas e o dinheiro da iniciativa privada. É um grande negócio que tem tudo para dar certo numa área importante da cidade.

Sua campanha foi muito objetiva, com detalhamento do que pretende fazer na prefeitura. A crise econômica internacional, que ficou mais aguda já perto do segundo turno, pode inviabilizar algumas das metas definidas na campanha?
É preciso ficar claro que não vou resolver todos os problemas no primeiro dia, tenho quatro anos pela frente. O que posso dizer para a população é que não descansarei um só instante até que eu consiga viabilizar aquelas melhorias de que a cidade precisa. É claro que haverá obstáculos, que algumas coisas não conseguirei fazer.

Que obstáculos o senhor acha que vai enfrentar?
Os mais variados, medidas judiciais, liminares, falta de recursos...

A Câmara de Vereadores pode ser um desses obstáculos?
Se eu não souber lidar com a Câmara, pode. Nesta semana, repeti o que já havia feito no início da campanha: fui lá e mostrei o meu respeito pela Casa. Pedi, inclusive, que os vereadores não deliberem sobre nenhuma iniciativa do atual prefeito que demande gastos no ano que vem, porque ele mandou uma solicitação de aumento para servidores. (Paes não contém um longo bocejo e pede café a um assessor). Ainda não consegui dormir direito desde a campanha.

Não baixou a adrenalina?
Pelo contrário, aumentou, ainda mais agora que tenho a responsabilidade nas mãos.

Quando vai tirar uma folga?
Deve haver um evento relacionado à candidatura Rio 2016 em Istambul, em meados deste mês. Vou ver se pego uma semana para viajar com a minha mulher e dar uma arejada.

Em análise do seu ex-blog, o prefeito Cesar Maia achou que as fotos do encontro, publicadas nos jornais no dia seguinte, não traduziram o clima amistoso da reunião de vocês dois. O senhor concorda com a declaração dele?
É verdade. Foi uma reunião natural, civilizada, serena. O prefeito foi muito gentil comigo e eu com ele. Sabemos dividir essas coisas, não fico raivoso, guardando mágoa e acredito que ele também não fique. Disponibilizou as informações para uma transição em alto nível. Seria a pior coisa do mundo não termos acesso a todas as informações. Acabou a eleição, agora há um quase ex-prefeito e um prefeito eleito, ambos com maturidade para lidar com as situações.

E o encontro com o presidente Lula, como foi?
Ele disse que estava muito feliz, que sabia que a disputa aqui iria ser difícil. O presidente foi muito gentil na maneira como me apoiou. Soube superar as nossas divergências do passado, que foram públicas e notórias. Não pedi desculpas, porque estava ali numa posição de deputado, fiscalizando o Poder Executivo, exercendo meu papel. Tivemos uma conversa madura, expusemos nossas opiniões, por isso ressalto a grandeza dele. Foi diferente em relação à atitude que tive com a dona Marisa, uma mãe, porque eu tinha exagerado nas ofensas pessoais ao filho dela. A ela, pedi desculpas no plano pessoal, não político. No calor das refregas políticas, a gente passa do tom, exagera um pouco, ultrapassa os limites.

Desde a campanha ficou claro que o seu secretariado seria composto por quadros tanto técnicos quanto políticos. Como espera fazer essa combinação?
Sou político e jamais disse que não colocaria política no meu governo. Nunca deixei de dialogar com os políticos. As alianças foram partidárias. Ninguém desconhece minhas alianças, diferentemente do que ocorreu com outras candidaturas. Existem áreas que quero respaldar tecnicamente, como saúde, educação, urbanismo, obras, Fazenda, Procuradoria. Outras vamos compor com quadros políticos qualificados.

Como estão sendo as conversas com os partidos? Com o PT, por exemplo?
Quero conversar ainda com os presidentes municipal e regional do partido. Quero muito que o PT participe do governo. E vou conversar pessoalmente.

E com o deputado Jorge Picciani (presidente da Assembléia Legislativa do Rio e membro do PMDB)?
Ele tem sido exemplar. Conversamos duas vezes nesta semana, e ele não pediu nada.

Há informações de que ele estaria conversando com o PT em seu nome...
Não. Quem apadrinhou a aliança com o PT foi o governador Cabral. Picciani é um aliado importante.

O senhor já foi do PV. O secretário de Meio Ambiente será ligado ao Partido Verde?
Não. O PV não se elegeu, mas tenho boa relação com a vereadora Aspásia Camargo, com o Alfredo Sirkis também. Espero que ele não tenha ficado chateado por eu ter dito que ele participou dos três governos do Cesar Maia. O outro vereador eleito (Paulo Messina), não conheço, mas tanto a Aspásia quanto o Sirkis são pessoas de elevado espírito público, com grande disposição para ajudar a cidade.

E a Andrea Gouvêa Vieira (vereadora reeleita pelo PSDB), o senhor convidou?
Não, não. Adoro a Andrea, é minha amiga, um quadro político qualificado, mas, em princípio, não. Ela deve estar numa posição de oposição formal. Tenho certeza que o que for positivo para a cidade ela vai aprovar. Há pessoas muito próximas a mim no PSDB, que votaram em mim, mas não saíram pela rua fazendo campanha.

Quem tem sido seu principal interlocutor nesta fase?
O governador é muito constante. Existe uma parceria muito forte. Não me preocupa que digam que estou sendo tutelado. Primeiro que o Sérgio não tem o menor saco para tutelar ninguém, nem tenho vocação para ser tutelado. São dois políticos que se entendem em perfeita harmonia, que são amigos e se admiram. Às vezes eu até peço sugestões de nomes, mas ele não me dá nenhuma. Ele diz claramente que, mesmo no governo dele, odeia nomear. Eu também acho isso a pior coisa do mundo.

Quando o PMDB decidiu compor com o PT, que já tinha anunciado Alessandro Molon como candidato, sua campanha já estava na rua. O senhor tinha certeza de que voltaria a concorrer?
Eu? Tinha certeza de que não voltaria. Foi uma circunstância, uma mudança de situação. Os astros convergiram favoravelmente. Mas naquele momento difícil, minha relação com o governador Sérgio Cabral só se fortaleceu. Soubemos superar a adversidade, permanecemos juntos, eu trabalhando como secretário dele. Tentaram fazer intrigas de todos os jeitos, mas eu sabia que aquilo era duro para mim e também para ele. Porque nós acreditávamos que eu poderia ganhar a eleição e por isso foi mais duro ainda. Uma coisa é você ser impedido de disputar uma eleição em que não teria chance. Outra é ficar fora quando poderia vencer.

A que o senhor atribui sua vitória na eleição?
A ter tido mais votos do que o Fernando Gabeira na Zona Oeste e na Zona Norte, o que compensou a derrota na Zona Sul, onde as pessoas vão muito pela moda. Você perguntava por que o Gabeira e muitos não tinham uma resposta objetiva... "por que é a onda..." Nada do que foi será do jeito que já foi um dia (canta a música de Lulu Santos usada por Gabeira). Você supõe que as pessoas daquela região seriam mais reflexivas, mas elas vão no embalo. Minha sorte é que não tenho nenhum desvio de conduta, senão teria sido crucificado em praça pública. Me chamaram de tudo, menos de desonesto e incompetente.

O senhor é da Zona Sul?
Nasci na Casa de Saúde São José, no Humaitá. Morei no Jardim Botânico. Estudei no Colégio Santo Agostinho, no Leblon. Me formei em direito pela PUC, na Gávea. Com 16 anos fui morar em São Conrado, onde meus pais vivem até hoje. Quando virei subprefeito é que fui morar na Barra.

O senhor já freqüentou a Praia de Ipanema no Posto 9?
Quando era garoto, minha mãe me levava no Posto 10. Mas acho o Posto 9 ótimo. Você está perguntando se eu... (risos). Meu lugar de tomar chope é no Jobi ou no Bar 20. Já tomei muito café da manhã na padaria Lisboa. Madrugada na Pizzaria Guanabara. Esse fenômeno de Zona Sul foi uma coisa do segundo turno. No primeiro, teve muito voto útil. O bom é que o povo mais humilde da cidade compensou do outro lado.

Por falar em outro lado, quais as áreas mais castigadas pela ausência de prefeito?
Zona Oeste, Barros Filho, Costa Barros, que têm o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade, Acari, Pavuna, Ricardo de Albuquerque, Anchieta, Jardim América, Parque Colúmbia, Fazenda Botafogo. É algo assustador. É preciso conhecer essas áreas, saber dos problemas.

Quais são eles?
Tudo. É necessário resgatar os serviços públicos, investir em urbanização, políticas de qualificação profissional, coleta de lixo, iluminação das ruas. Vamos tratar essas áreas degradadas com muita atenção.

O prefeito Cesar Maia se disse outro dia preocupado com o atraso nas obras da Cidade da Música. A inauguração pode ficar para o senhor...
Não, a placa eu vou deixar ele inaugurar.

O custo mensal será mesmo de cerca de R$ 1 milhão?
Acho que é mais. Com a experiência que tive gerindo o Maracanã, há despesas com pessoal, contrato de limpeza, de jardinagem, de segurança, conta de água, conta de luz. Pelos meus cálculos, chega perto de R$ 2 milhões por mês. Vamos tentar fazer a concessão, trabalhar com a parceria privada. Não seria algo que eu faria, mas foi feita e agora compete a nós fazer com que um equipamento em que a cidade colocou quase R$ 600 milhões funcione.

Já há parceria em vista?
Ainda não. Tive algumas conversas ainda no primeiro turno, vamos ver... Aliás, não é para fazer média, mas eu queria dizer aqui que o Jornal do Brasil fez, de longe, a melhor cobertura da eleição. Desde o início, o jornal abriu um espaço enorme, elogiou e criticou todos os candidatos. Foi imparcial.

enviada por Tales Faria



31/10/2008 09:49

Quem perdeu, perdeu. O resto é armação.


Não creio em bruxas. Mas...

Tenho um amigo, hoje ministro de Estado, que dizia:
"Tales, você acha que tem uma gente aí que se reuniu e decidiu que a América Latina vai ter que obedecer ao Consenso de Washington? Isso é uma bobagem!"

Nunca achei que tem "uma gente aí" que se reúne e decide as coisas. Mas li, na minha adolescência, nos livros marxistas (também nunca fui um apaixonado pelo camarada Karl, sempre fui anarquista, mas neste caso ele estava certo), que os grupos hegemônicos acabam firmando uma ideologia dominante. E que, através dela, passa-se a dar por naturais coisas que em outros momentos, outros tempos ou outras conjunturas não seriam tão naturais assim.

É curioso, não há uma "reunião dessa gente aí", mas tudo é mais difícil quando você tenta nadar contra a corrente, pensar de maneira diferente dos grupos hegemônicos.

Costumo citar um caso lapidar que vivenciei. Na revista ISTOÉ, pegamos o velho Antônio Carlos Magalhães falando que obtivera a lista com uma votação secreta do painel do Senado. Só isso: ele falando. Numa gravação muito ruim de ser ouvida. Mas ACM -- que vinha abusando de sua parcela de poder -- caíra em desgraça junto ao stablishment. O presidente da República de plantão, Fernando Henrique Cardoso, não aguentava mais aquela arrogância. A elite toda já se bandeara para o tucanato e o velho PFL ainda não notara, mas já havia perdido seu poder.

Resultado da brincadeira: logo comprovou-se cientificamente que o painel do Senado fora violado, coisa que na época eu achava muito difícil de se conseguir comprovar. O presidente do Senado, Jader Barbalho, mandou ACM para a Comissão de Ética e o poderoso senador teve que renunciar.

Pegamos o ACM. Mas, àquela altura, todo mundo queria pegar o homem. O problema foi depois, quando o velho cacique se reelegeu senador e estabeleceu um pacto de convivência com o PT no Senado, então no poder e comandado por Tião Viana, Aloizio Mercadante e Ideli Salvatti. Os petistas precisavam de ACM para sustentar um mínimo de governabilidade num quadro de desconfiança dos agentes econômicos sobre os rumos do país.

Pois é, nesse quadro, descobrimos, na ISTOÉ, mais uma do velho cacique: ele usara informações contra seus adversários políticos e até sua namorada obtidas de um esquema de escutas telefônicas clandestinas que foi montado na Secretaria de Segurança da Bahia. Tudo comprovado pela Polícia Federal. Pão, pão, queijo, queijo!

Sabe no que deu? Nada! Nem condenação em comissão de ética, nem cassação, nem nada no Supremo Tribunal Federal. Aliás, por esta época -- já que os tempos tinham mudado -- o STF absolveu ACM do caso do painel, sob o argumento de que não havia tipificação para crime eletrônico. Pois é... é terrível nadar contra a corrente.

A nova onda que se faz agora é estranhíssima. Todo mundo por aí dizendo que o Fernando Gabeira, candidato do PV a prefeito do Rio, perdeu as eleições mas foi vitorioso. Para mim, o normal é que percam os derrotados. Mas tem uma turminha aí, meio hegemônica na imprensa, com essa história: Gabeira foi vitorioso!

Por que estão fazendo isso? Bem, acho que a turma está de olho mais à frente. Primeiro, em fortalecer essa aliança PSDB-PFL-PV que sustentou a campanha do verde no Rio, preparando-a para 2010. Depois, para fazer de Gabeira candidato a governador. Se malharem bastante nesse ferro, insistirem que ele foi vitorioso, terão em Gabeira um forte candidato ao governo, capaz de reunir uns votinhos neste que é o segundo maior eleitorado do país para a campanha presidencial do tucanato em 2010.

Perfeitamente legítimo. É esse o jogo da política. Assim como também é legítimo que as coisas sejam postas às claras. E paremos com essa história de que quem perdeu, ganhou. Perdeu, perdeu. Pelo menos desta vez. Na próxima, quem sabe?

enviada por Tales Faria



28/10/2008 10:58

Uma entrevista com o prefeito Cesar Maia




enviada por Tales Faria



27/10/2008 13:52

Lula, Marta e Pinheiro Machado


Lembra aquela célebre frase de Pinheiro Machado, eminência parda da Primeira República, no início do século passado? Quando seu carro foi cercado por uma assustadora multidão que o desafiava, à saída do jornal carioca "O País", a velha raposa política instruiu assim seu motorista: "Vá. Mas nem tão devagar que pareça provocação, nem tão rápido que pareça covardia."

Foi exatamente assim que o presidente Lula agiu na campanha de Marta Suplicy a prefeita de São Paulo. Ao notar que a candidatura da petista ruíra, com Gilberto Kassab entrando já favorito no segundo turno, Lula fez uma manifestaçãozinha aqui, outra ali, em favor de Marta. Mas nada que trouxesse para si o desgaste da ex-prefeita de São Paulo. Manifestações de apoio na medida certa, nem tão barulhentas que parecessem provocação, nem tão silenciosas que dessem a impressão de covardia.

Tudo indica que deu certo: Marta foi para o brejo, mas Lula não parece ter-se chamuscado.

enviada por Tales Faria



27/10/2008 13:19

Trator governista


Trecho da coluna Coisas da Política, que postei aqui, no dia 07, às 10:13:
No dia 9 de setembro, anotei aqui neste espaço a expectativa de alguns dos auxiliares do presidente Lula com o resultado do primeiro turno das eleições. Era espantoso o fato de esperarem eleger até 20 prefeitos de capitais aliados ao governo federal, num universo de 26 em disputa (o Distrito Federal não elege prefeito).

Pois é, vamos ao balanço. Quinze candidatos já se elegeram no primeiro turno, sendo 12 de partidos governistas – seis do PT, três do PMDB, dois do PSB e um do PCdoB. Sobraram 11 capitais em que haverá segundo turno. Destas, em seis concorrem entre si nomes da base governista. Casos como o de Belo Horizonte, onde Márcio Lacerda (PSB) disputa com Leonardo Quintão (PMDB), e Salvador, com João Henrique (PMDB) contra Walter Pinheiro (PT).

Somando os 12 do primeiro turno às seis capitais onde a disputa será entre aliados do governo federal, o presidente Lula já conta com 18 prefeitos de capitais eleitos que pertencem aos partidos da coligação governista. Se, das cinco capitais em que candidatos de oposição chegaram ao segundo turno, os governistas perderem em três e vencerem em duas, já terão chegado às 20 capitais com que sonhavam. Mas se ficarem nos 18, Lula já terá tido um desempenho impressionante nestas eleições.

Pois é. No segundo turno, foram eleitos mais oito prefeitos de capitais de partidos governistas. Deu os tais 20! Mas vamos tirar o José Fogaça, de Porto Alegre, que é da ala oposicionista do PMDB. Dezenove capitais nas maõs dos partidos governistas. Realmente impressionante.

Reafirmo o que disse na tal coluna:

E o velho PFL perdeu quase que completamente sua força.

As duas últimas trincheiras do antigo PFL no país são o Rio de Janeiro, com o prefeito Cesar Maia, e Salvador, com a candidatura de Antonio Carlos Magalhães Neto. Os aliados de Lula acreditam que vencem nas duas praças, praticamente acabando com o DEM. Nem uma vitória de Gilberto Kassab, em São Paulo, teria significação para o partido. Kassab é mais de José Serra do que do DEM, todos sabem disto."

Principalmente a cúpula do DEM, que ontem mesmo correu para São Paulo a fim de se agarrar à sua única cria, na verdade um filho há muito adotado pelo tucano José Serra. O que querem os auto-denominados democratas? Querem, pelo menos, um discurso. Poder dizer coisas como as divulgadas hoje pelo prefeito do Rio em sua news letter eletrônica, o "Ex-Blog do Cesar Maia". Segundo o alcaide do DEM, seu partido perdeu votos no Rio, mas recuperou-se com a votação em SP. Passou de 2.861.671 votos em 2004, para 3.406.007 em 2008. "Um crescimento de 19,0%!" Alguém precisa lembrar que esses milhões de votos em São Paulo quase nada têm a ver com o DEM. São de José Serra mesmo.

E é aí, no governador tucano de São Paulo, que está, agora, o principal problema do presidente Lula. A vitória de Kassab fortaleceu Serra sobremaneira. O candidato que ele carregou nas costas entra no segundo turno como favorito contra uma Marta Suplicy que, hoje, é praticamente um emblema do PT. Lula não pode largar sua aliada. Terá que entrar na campanha, correndo o risco de transformar São Paulo numa prévia das eleições de 2010, com a crise econômica se avizinhando e justamente no Estado onde crises desse tipo são mais perceptíveis.


enviada por Tales Faria



27/10/2008 07:10

Foto da vitória


Por falar em foto, o retrato do Paes que o Evandro Teixeira publica hoje também é ótimo. Veja só:



enviada por Tales Faria



26/10/2008 23:36

FOTO HISTÓRICA


Ah! Sem falsa modéstia, gostei muito da foto de capa de hoje, assinada pelo mestre Evandro Teixeira. Veja só:



enviada por Tales Faria



26/10/2008 23:09

QUESTÃO DE CREDIBILIDADE 2


E este foi o texto da edição especial de hoje do Ex-Blog do Cesar Maia. O prefeito -- antes reconhecido como um bom analista de pesquisas -- jogou no chão a sua credibilidade e a de seu instituto. Veja sõ:

"Ontem à noite este Ex-Blog comentou as pesquisas. Hoje complementa com detalhes.

COMO OS VOTOS SÃO DISTRIBUÍDOS NA ELEIÇÃO DE HOJE!

A análise interna da diferença de 3 pontos a favor de Gabeira na média da pesquisa/investigação do GPP e Data-Blog de ontem!

1. Entre os homens Gabeira vence com 13 pontos de diferença. Entre as mulheres Paes vence e a diferença tem oscilado de pesquisa a pesquisa e de instituto a instituto (incluindo Ibope e Data-Folha). Vai de uma vantagem de 2 pontos a 6 pontos.

2. Gabeira vence entre os mais jovens com diferença de 23 pontos. Vence também na faixa entre 25 e 34 anos com diferença de 12 pontos. Vence na faixa entre 35 a 44 anos, com diferença que oscila entre 2 pontos e 7 pontos. Entre 45 e 59 anos, as diferenças oscilam, havendo uma tendência de empate. Nos que tem mais de 60 anos Paes vence com diferença de 12 pontos.

3. Por grau de instrução, Paes vence com uma diferença de 25 pontos entre os que não completaram o primeiro grau. Vence com diferença de 10 pontos entre os que não completaram o segundo grau. Gabeira vence por 10 pontos entre os que têm até o superior incompleto. E por 40 pontos entre os que têm o superior completo.

4. Entre os que ganham até 2 SM (renda familiar) Paes vence com 20 pontos. Entre 2 e 5 SM, Gabeira vence com 2 pontos. De 5 a 10 SM, Gabeira vence com 25 pontos. E mais de 10 SM vence com 40 pontos de diferença.

5. Entre os Católicos há uma situação de empate. Entre os evangélicos Paes vence por 20 pontos. Nos demais Gabeira vence por 25 pontos. Os evangélicos representam 20%. Os Católicos 55%. Os demais 25% (inclui os que se dizem sem igreja).

6. Entre os leitores do Globo, Gabeira vence com uma diferença de 30 pontos. Entre os leitores do Dia, do Extra e do Meia-Hora, há um empate. Entre os que não lêem jornal, Paes vence com vantagem de 10 pontos.

7. Entre os que moram em favelas (20%) Paes vence com 16 pontos de diferença. Entre os que moram em área não favela (80%) Gabeira vence com diferença de 10 pontos.

8. Nos bairros de maior concentração de classe média (25%) (Barra, Zona Sul/do Centro a Tijuca e Vila Isabel) Gabeira vence com 45 pontos de diferença. Na Zona Norte (43%) Paes vence com 10 pontos. Em Jacarepaguá (7,9%), pela heterogeneidade, os resultados oscilam e Paes tem vantagem de 6 pontos. Na Zona Oeste (23,5%), onde a diferença era de 10 pontos, ontem subiu para 15 a favor de Paes."

enviada por Tales Faria



26/10/2008 23:04

E CESAR MAIA INSISTIU

O prefeito do Rio não fez por menos. Distribuiu uma edição "especial 2" de seu Ex-Blog, na qual afirmou:

"AINDA AS PESQUISAS! FOCO NO IBOPE E GPP!

1. Ibope no voto direto deu 45% para Paes e 44% para Gabeira. Agência Estado: "Candidato do PV e peemedebista oscilaram dentro da margem de erro e têm 44% e 45%, respectivamente".

2. GPP: voto consolidado (excluindo os que podem mudar o voto): Gabeira 41,9% x 38,8% Paes."
enviada por Tales Faria



26/10/2008 22:59

DISCURSO PREPARADO

Mas o prefeito Cesar Maia, seu Ex-Blog e seus aliados já tinham preparado, na ponta da língua, o discurso. Tanto que a tal edição extra de sua news letter eletrônica dizia:

"TRE-RJ DIZ QUE FARÁ OS CRUZAMENTOS PEDIDOS PELO DEM, PSDB E EX-BLOG!

Mas é importante que os partidos cobrem esta listagem depois das eleições, independente dos resultados. Esse Ex-Blog repete> INDEPENDENTEMENTE DOS RESULTADOS! Servirá para as próximas eleições.

Globo-ON.
TRE-RJ responde a suposta suspeita de fraude nas eleições

Ainda de acordo com o TRE-RJ, há outra maneira de se identificar tal fraude: o cruzamento do número de comparecimento da seção eleitoral com o de justificativas eleitorais daquela mesma seção. Para que um eleitor vote, é preciso que o presidente de seção lance no sistema o número do título de eleitor. Sendo assim, quando o eleitor que está fora da cidade justifica a ausência, o número de seu título é registrado no sistema. A duplicidade de registro (como voto e justificativa) seria imediatamente identificada."

enviada por Tales Faria



26/10/2008 22:54

QUESTÃO DE CREDIBILIDADE

Hoje foi um dia especial para o prefeito do Rio, Cesar Maia (DEM). Tanto que seu "Ex-Blog" ontem saiu com duas edições (normalmente é uma só, nos dias da semana, e nenhuma aos sábados e domingos).

A primeira destas edições saiu sob o título "Extra! Extra!". Dizia simplesmente o seguinte:

"DATA-BLOG E GPP: PESQUISAS REALIZADAS APENAS NESTE SÁBADO!

1. A pesquisa realizada apenas no sábado afasta os desvios das pesquisas em meio de semana, já comentados por este Ex-Blog.

2. Data-Blog colocou suas perguntadoras e perguntadores por toda a cidade. Entrevistou 5.600 pessoas. E encontrou uma diferença de 4 pontos a favor de Gabeira em votos totais. Nos votos válidos deu Gabeira 52,3% x 47,7% Paes. O Data-Blog usa como margem de segurança a abstenção, que sempre favorece os candidatos com referências maiores de classe média.

3. O GPP fez pesquisa com 2.400 eleitores. O resultado foi de 45,4% para Gabeira e 42,9% para Paes, uma diferença de 2,5 pontos para Gabeira. Em votos válidos foram 2.400 eleitores entrevistados e todas as entrevistas foram no sábado, eliminando os desvios de meio de semana. Com isso o GPP dá 51,4% para Gabeira e 48,6% para Paes.


DATA-BLOG COMENTA DATA-FOLHA E IBOPE!

1. Data-Folha deu 45% para Paes e 43% para Gabeira ou 51% x 49% nos votos válidos. Gabeira subiu 2 pontos e Paes 1 ponto. Foram entrevistados 2.463 eleitores sexta e sábado. As entrevistas feitas na sexta-feira incorporam os desvios de meio de semana que prejudicam Gabeira e favorecem Paes. Agregando as questões relativas a abstenção + brancos e nulos, que alcançam uns 25% no dia da eleição e que nessa pesquisa do Data-Folha alcançaram 12%, este Ex-Blog projeta, usando os mesmos números do Data-Folha, a vitória de Gabeira por pelo menos 3 pontos de diferença.

2. Ibope deu o mesmo resultado com 2.000 eleitores: 51% x 49% para Paes. Outra vez com a pesquisa dividida entre sexta e sábado e com os desvios de meio de semana. E outra vez com os desvios já citados em relação à abstenção, brancos e nulos."

Como o leitor pode perceber, comparando com o resultado final da eleIção, Cesar Maia estava completamente errado.

enviada por Tales Faria






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